Falar com os passarinhos

Maio 20, 2008

Num post chamado a “A coerência da incoerência” o Nuno Castro respondeu ao meu primeiro post. Sem querer transformar este blog num espaço dedicado exclusivamente a rebater o que o Nuno escreve, não quero deixar de lhe dar resposta. É que, apesar do tom do Nuno roçar o insulto, chamando-me de tolo a cínico multitudinário e cognitivo, acho que estão em jogo questões que normalmente não são discutidas à esquerda e que até merecem ser, como a da coerência entre posição política e modo de vida. Infelizmente têm sido monopólio da direita caceteira, e para grande pena minha o discurso do Nuno não anda lá muito longe.

Resumindo os argumentos, o Nuno acha que a organização do curso de Pensamento Crítico Contemporâneo entra em contradição com as posições de esquerda dos seus organizadores. Basicamente por duas razões: primeiro porque constitui uma prática lucrativa, em que se está a utilizar o pensamento de esquerda para ganhar uns cobres, e segundo porque se trata de “uma tentativa de uma elite em estado gestacionário a tentar garimpar pelos corredores do capital simbólico académico e mediático.” Quanto à primeira, ou o Nuno está mal informado ou está de má fé. Como se pode ver aqui o preço é tudo menos um preço de mercado. Quanto aos corredores do capital simbólico académico e mediático, bem fodidos estávamos nós se dependêssemos do curso para fazer carreira. Mas o que é engraçado é o que o Nuno escreve a seguir: “E mais uma vez não vinha daí mal nenhum ao mundo não se desse o caso de essa mesma elite ser profundamente (leia-se enfaticamente e não genuinamente) crítica desse mesmo establishment.” Como os ataques ao curso propriamente dito não me parecem muito relevantes, vou concentrar-me nesta linha de argumentação do nuno.

Ora se o Nuno quer ser coerente com os seus argumentos, e como o Nuno preza a coerência muito mais do que eu, então tem de vituperar não apenas os organizadores deste curso, mas todos os que ocupam ou ocuparam lugares no establishment académico e que são e foram críticos desse establishment. Lá se vão o Adorno, o Foucault, o Badiou, o Zizek, o Bourdieu, o Rancière e eu sei lá mais quantos. Portanto e basicamente ficaríamos com as estantes das livrarias e as universidades ocupadas exclusivamente por defensores entusiásticos do sistema e defensores cautelosos do sistema. Friedmamm e Giddens, Huntington e Beck. Isto porque, para o Nuno, ser coerente para um anti-capitalista ou enti-establishment é não entrar no jogo do capitalismo. O que o Nuno propõe é uma espécie de retirada monástica de cena. Parece que a única saída coerente para quem se opõe ao sistema é o franciscanismo.

É que se o capitalismo está omnipresente, não é o êxodo que constitui a chave para a sua superação. Também não é do seu seio que surgirão as forças que o vão derrubar, como sugerem Negri e os seus seguidores. Nisso acho que eu e o Nuno estamos de acordo. Como diz Jacques Rancière “A inteligência colectiva produzida por um sistema de dominação nunca é mais do que a inteligência desse sistema. A sociedade desigual não traz no seu seio nenhuma sociedade de iguais.” A questão com que nos temos de defrontar é a de como construir no ambiente desigualitário das nossas sociedades relações igualitárias. Não é o curso do pensamento crítico que as constrói? De facto não é. A minha esperança é que possa contribuir para que se conheça melhor uma meia dúzia de autores que, esses sim, pensaram a hipótese igualitária e comunista. Que eu saiba, não há nenhum franciscano entre eles.

A contramão de deus

Maio 11, 2008

Vale a pena visitar o blogue do nuno. Os posts são sempre excelente leitura. Impecavelmente escritos, são postas complexas, longas e de leitura exigente. Mas que valem sempre a pena, mesmo quando não concordamos com as ideias dele. E muitas vezes não concordamos. Como já acontecia no blogue qualquer, muitos dos posts são leituras, de livros, de artigos, de filmes, e o nuno é um excelente leitor, mas que acaba por encontrar no que lê o seu próprio pensamento, mas essa é uma dar marcas do grande leitor. Como sucede com a boa escrita, lê-la é um convite a escrever e, por isso, ler o blogue do nuno deu-me ganas de começar este bloco de notas, aqui na plataforma wordpress, tal como o nuno.

Se calhar é também por isso que o meu primeiro post é uma resposta ao nuno. Mais concretamente a este post, onde aliás, um dos alvos da crítica do nuno é um curso de que sou co-organizador. Começaria, justamente, por essa crítica.

Embora nunca o citando, o alvo do ataque do nuno é obviamente curso de Pensamento Crítico Contemporâneo, que decorre na Fábrica de Braço de Prata. Mas o que é que autoriza o nuno a dizer que o curso foi feito para “ilustração e brilho dos seus próprios proponentes”? Pode-se sempre argumentar que cursos, seminários, workshops e conferências conferem sempre capital simbólico (quando não financeiro aos seus organizadores). Ou, mais concretamente, entram para o currículo. Mas se isto é verdade para este, é verdade para todos. Melhores ou piores, mais ou menos relevantes, isso não importa para o caso. Mas não é esse o argumento do nuno. Leia-se com atenção o post e o que o nuno está obviamente a dizer é que o curso foi feito exclusivamente para promover os seus proponentes. E o que é que ele avança para sustentar esta sua posição? Nada, rigorosamente nada. Não existe argumento mais desonesto do aquele que é baseado em processos de intenção. A estrutura é simples, substitui-se ao discurso efectivamente enunciado, a suposta intenção escondida do agente do discurso. Eles dizem isto, mas na verdade querem dizer aquilo. Atenção, é perfeitamente legítimo por em causa os discursos que os agentes sobre si mesmos fazer. Eu diria mesmo que é essencial. Não se pode é substituir por aquilo que mais convém ao nosso argumento, sem nada aduzir em jeito de prova. É exactamente o que fazem os novos defensores do sionismo, quando acusam a esquerda que critica Israel, de ser de facto anti-semita. Como argumento não vale muito, mas para conseguir o aplauso dos cínicos profissionais não há melhor.

Um bocado mais sério é o outro argumento do nuno à nova esquerda, que ele assimila ao cognitariado. Esta assimilação, que nada tem de óbvio (é preciso explicar porque é que se sobrepõe uma categoria produtiva a uma tomada de posição política), é apresentada como se fosse evidente, para servir um retrato da nova esquerda (ou dos novos da esquerda) que parece o CDS-PP a falar do Bloco de Esquerda. Resumindo, para o Nuno há uma contradição, que é uma hipocrisia, entre as ideias que alguma esquerda defende e o estilo de vida que tem., recheado de prazeres burgueses. A estes contrapõe o Nuno, os explorados da velha esquerda, a quem o Nuno, pelo simples facto de serem desposuídos atribui uma estatura moral superior. É uma ideia com uma longa genealogia, e com adeptos fervorosos, desde a capela (“abençoados os humildes, porque deles será o reino dos céus”) até à Amnistia Internacional.

Se o Nuno fosse menos selectivo nos exemplos, talvez levasse em linha de conta a afinidade conceptual entre cognitariado e uma outra categoria social também originária das correntes autonomistas italianas e dos seus seguidores (nomeadamente a revista Multitudes), que é o precariado. Um segmento desses trabalhadores imateriais a quem as delícias do consumo burguês serão eventualmente menos acessíveis. Mas nem seria preciso ter em conta o que o Nuno diz. Basta atentar ao absurdo dos argumentos. Basta ver as comparações que o Nuno avança. “Em termos muito comezinhos, é razoável, e até salutar, esperar que um juiz não cometa crimes graves, que um médico não se esteja a marimbar para a saúde dos seus doentes, que um padre pratique a moral que incita o seu rebanho a praticar, e até que um primeiro-ministro não fume num avião colocando a lei que ajudou a redigir em causa.” Numa coisa o Nuno tem razão, os termos são mesmo muito comezinhos. Seria razoável dizer que de uma pessoa de esquerda se espera que não pratique a exploração dos trabalhadores, que não seja racista, que não seja sexista, mas porquê viver como um pobre? Especialmente quando não se é? Não é isto em última análise uma espécie de louvor da pobreza comparável ao do Salazarismo? Dignificar a pobreza não é em última análise aceitar o lugar que o pobre tem na estrutura social?


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.