Num post chamado a “A coerência da incoerência” o Nuno Castro respondeu ao meu primeiro post. Sem querer transformar este blog num espaço dedicado exclusivamente a rebater o que o Nuno escreve, não quero deixar de lhe dar resposta. É que, apesar do tom do Nuno roçar o insulto, chamando-me de tolo a cínico multitudinário e cognitivo, acho que estão em jogo questões que normalmente não são discutidas à esquerda e que até merecem ser, como a da coerência entre posição política e modo de vida. Infelizmente têm sido monopólio da direita caceteira, e para grande pena minha o discurso do Nuno não anda lá muito longe.
Resumindo os argumentos, o Nuno acha que a organização do curso de Pensamento Crítico Contemporâneo entra em contradição com as posições de esquerda dos seus organizadores. Basicamente por duas razões: primeiro porque constitui uma prática lucrativa, em que se está a utilizar o pensamento de esquerda para ganhar uns cobres, e segundo porque se trata de “uma tentativa de uma elite em estado gestacionário a tentar garimpar pelos corredores do capital simbólico académico e mediático.” Quanto à primeira, ou o Nuno está mal informado ou está de má fé. Como se pode ver aqui o preço é tudo menos um preço de mercado. Quanto aos corredores do capital simbólico académico e mediático, bem fodidos estávamos nós se dependêssemos do curso para fazer carreira. Mas o que é engraçado é o que o Nuno escreve a seguir: “E mais uma vez não vinha daí mal nenhum ao mundo não se desse o caso de essa mesma elite ser profundamente (leia-se enfaticamente e não genuinamente) crítica desse mesmo establishment.” Como os ataques ao curso propriamente dito não me parecem muito relevantes, vou concentrar-me nesta linha de argumentação do nuno.
Ora se o Nuno quer ser coerente com os seus argumentos, e como o Nuno preza a coerência muito mais do que eu, então tem de vituperar não apenas os organizadores deste curso, mas todos os que ocupam ou ocuparam lugares no establishment académico e que são e foram críticos desse establishment. Lá se vão o Adorno, o Foucault, o Badiou, o Zizek, o Bourdieu, o Rancière e eu sei lá mais quantos. Portanto e basicamente ficaríamos com as estantes das livrarias e as universidades ocupadas exclusivamente por defensores entusiásticos do sistema e defensores cautelosos do sistema. Friedmamm e Giddens, Huntington e Beck. Isto porque, para o Nuno, ser coerente para um anti-capitalista ou enti-establishment é não entrar no jogo do capitalismo. O que o Nuno propõe é uma espécie de retirada monástica de cena. Parece que a única saída coerente para quem se opõe ao sistema é o franciscanismo.
É que se o capitalismo está omnipresente, não é o êxodo que constitui a chave para a sua superação. Também não é do seu seio que surgirão as forças que o vão derrubar, como sugerem Negri e os seus seguidores. Nisso acho que eu e o Nuno estamos de acordo. Como diz Jacques Rancière “A inteligência colectiva produzida por um sistema de dominação nunca é mais do que a inteligência desse sistema. A sociedade desigual não traz no seu seio nenhuma sociedade de iguais.” A questão com que nos temos de defrontar é a de como construir no ambiente desigualitário das nossas sociedades relações igualitárias. Não é o curso do pensamento crítico que as constrói? De facto não é. A minha esperança é que possa contribuir para que se conheça melhor uma meia dúzia de autores que, esses sim, pensaram a hipótese igualitária e comunista. Que eu saiba, não há nenhum franciscano entre eles.